A Padeirinha de Aljubarrota
O seu nome completo era Brites de Almeida e era tão feia e volumosa que mais se parecia com um homem do que com uma mulher. De tal forma este facto marcou a sua vida que até as profissões que teve eram actividades masculinas. E assim, muito cedo e ainda muito jovem, baniu a sua condição feminina.
Conta-se que nasceu na cidade de Faro. Os seus pais eram pessoas muito humildes e pobres. Viviam numa taberna onde também trabalhavam. Logo após o nascimento de Brites de Almeida, os seus pais ficaram imensamente felizes porque ela parecia-se verdadeiramente com um menino e sua ajuda na taberna seria muito bem vinda sendo ela uma criança muito forte com um particularidade curiosa: possuía seis dedos em cada mão. Cedo, revelou tendências naturais para lutar e andava sempre à procura de problemas. Preferia lutar destemidamente contra outras crianças do que ajudar os seus pais no trabalho.
Brites teria vinte anos quando ficou órfã. Esta tragédia não a transtornou porque lhe deu a oportunidade de se tornar independente e auto-suficiente. Assim, após ter vendido tudo o que herdara, esqueceu a sua terra natal e iniciou um périplo de aventuras pelo país fora. Deparou-se com gente muito diferente. Teve uma vida de inúmeras aventuras e, por vezes, teve mesmo que dormir ao relento. Habilidades de combate não lhe faltavam. Tornou-se famosa como espadachim, pois ela era muito boa com armas.
Certo dia, conheceu um soldado português que se apaixonou perdidamente por ela e pediu-a em casamento. Por não querer perder a sua independência impôs uma simples condição. Ele teria de lutar contra ela. O duelo foi terrivelmente violento e o soldado foi derrotado ficando a sangrar quase à morte. Teve que fugir e esconder-se. Assim, navegou até África, mas o navio foi atacado por piratas e Brites foi vendida como escrava. Com a ajuda outras duas escravas portuguesas, conseguiu escapar e rumou novamente para Portugal. Mas uma vez mais, a destino foi impiedoso. O barco foi apanhado numa terrível tempestade e naufragou na Ericeira.
De regresso às terras lusitanas e julgando ainda ser procurada pela Justiça, disfarçou-se de homem, o que foi realmente fácil visto que o seu corpo era muito masculino.
Cansada de viver uma vida de lutas e assaltos, decidiu estabelecer-se e começou-se trabalhar numa padaria. O tempo foi passando e quando finalmente conseguiu o seu próprio negócio, casou com um lavrador, provavelmente tão forte quanto ela.
E começou então a lenda.
Estávamos a 14 de Agosto de 1385. A guerra entre Portugueses e Espanhóis estava no seu auge e aquele apelo ardente do tinir das espadas que ainda vivia dentro dela, renasceu. Quando as hordas espanholas atravessaram a fronteira portuguesa e se aproximaram de Aljubarrota, pôs mãos à obra e, conseguindo juntar grupos armados, expulsou os invasores. Vezes sem conta travou batalhas sangrentas, e vezes sem conta, era bem sucedida. No fim de uma dessas batalhas, quando regressava a casa, coberta de sangue, e à medida que se aproximava da sua padaria, Brites teve uma sensação estranha! Algo estava errado. A porta ao forno de padaria estava anormalmente fechada. Sete soldados espanhóis estavam escondidos dentro do forno de padeiro, aguardando sorrateiramente pelo anoitecer. Um a um, chamou os espanhóis e um a um agrediu-os violenta e barbaramente com uma pá de padeiro. Matou-os a todos.
Depois deste episódio, conduziu numerosos grupos de mulheres armadas. Brites perseguiu alvoroçadamente todos os soldados espanhóis que encontrava no concelho e que estavam escondidos. Tornou-se assim um símbolo da resistência contra os invasores.
A lenda diz que depois desse episódio Brites de Almeida, a Padeirinha de Aljubarrota, teve uma vida serena e harmoniosa. Dedicou-se ao seu marido e abraçou o negócio da padaria e do cultivo. E, muito embora aqueles acontecimentos fossem de uma violência indescritível, Brites transformou-se num símbolo da independência do nosso reino.
